A intervenção psicológica em Setores Neonatais
Tudo começa com uma idéia: ter filhos.

Tudo começa com uma idéia: ter filhos.


De acordo com nossas expectativas culturais espera-se que um filho seja querido pela família, em especial pelos pais, que haja carinho e cuidados com a gestação na espera de nove meses e a preparação da família para a chegada do seu novo integrante.


Nem sempre é assim. Muitas crianças não correspondem a estas expectativas quando nascem malformados, quando nascem muito antes do tempo, quando um dos pais rejeita o nascimento da criança, se têm uma doença congênita ou uma síndrome desconhecida. O que acontece com os pais destas crianças do ponto de vista psicológico? É possível prever as conseqüências psicológicas para a criança diante do impacto do seu nascimento não esperado (melhor seria dizer des-esperado)?


O nascimento de uma criança nestas condições exige cuidados especiais desde o seu nascimento, como a sua internação precoce em setores específicos de um hospital-maternidade, o chamado Setor Neonatal, que consiste em locais de cuidados intensivos com o bebê.


No Setor Neonatal é possível identificar algumas características psicológicas entre as mães de bebês de risco, a saber: A negação de contatos físicos com a criança, já que a equipe médica necessita manipular a criança com freqüência, o que gera na mãe uma sensação de desconforto, medo e ciúmes. Receio de não saber segurar o seu bebê às vezes muito pequeno e frágil. Dificuldades em manter o aleitamento até a alta do bebê, pois criança pode ficar meses internada; o que exige da mãe muita disciplina, como fazer mais de dez ordenhas manuais por dia, inclusive durante a noite, sem que ela saiba se este esforço vai valer a pena ou não. Estados depressivos devido a incertezas sobre a recuperação do bebê, sobre a eficiência da equipe e sobre as seqüelas que a criança poderá ter. Insônia e falta de apetite, já que alta hospitalar da mãe não coincide com a alta da criança, o que faz com que ela passe as noites em casa sabendo que o seu filho ainda corre risco no hospital. Fantasias sobre o estado real da criança. Identificação psíquica intensa entre mãe e bebê. Sentir-se furtada no direito de ser mãe. Em tais setores não é incomum ouvir: “Não era esse o bebê que eu queria”.


Imaginamos que as conseqüências de uma internação precoce para o bebê está permeada por sensações intensas de insegurança e dor, o que pode marcar o seu psiquismo para sempre.


Para diminuir o impacto psicológico de um nascimento de risco alguns hospitais têm como filosofia a humanização do atendimento em setores neonatais, de forma que a equipe está preparada para tentar incluir a mãe nos cuidados com o bebê durante a internação do mesmo. Estas tentativas de inclusão vão desde o cuidado dos médicos em passar informações precisas, em orientar a mãe sobre os procedimentos a serem realizados com a criança, em fazer com que a mãe participe efetivamente nos cuidados com a criança, como trocar a fralda, virar o bebê na isolete, trazer roupinhas que ela comprou para uso do bebê sempre orientados e acompanhados pela enfermagem. A humanização implica também na realização de grupos informativos de aleitamento geralmente realizados pelo Banco de Leite do hospital e grupos de pais coordenados por psicólogos, a fim de que as sensações dos pais sejam compartilhadas e trabalhadas.


O papel do psicólogo muitas vezes não é percebido neste processo, mas é de extrema importância, uma vez que, além de orientar e esclarecer a família com relação aos procedimentos e a rotina do setor e com relação à patologia da criança junto com os demais membros da equipe, ele atua no sentido de tentar fortalecer o vínculo pais-bebê, de apontar para a equipe as dificuldades emocionais dos pais, de dar espaço para que se fale das angústias presentes numa situação de internação precoce, de verificar e intervir em situações que significam risco emocional para a criança ou para os pais.


O setting terapêutico em setores de risco não é uma sala preservada com poltronas e divã, mas transforma-se na relação psicólogo-paciente. O psicólogo deve estar atento às reações dos pais diante das informações médicas, na forma como a equipe se refere ou trata os pais e o bebê, na forma como os pais se relacionam com o bebê, no tempo que passam no hospital, ao que fazem no hospital, se estão cuidando da sua rotina particular (refeições, vestuário, outros filhos, emprego, casa), entre outros sinais que podem ser reveladores de sua dinâmica.


É esperado que neste processo, os pais se cansem, sintam raiva, não queiram se dedicar exclusivamente ao bebê e à sua internação, afinal, eles têm uma vida que acontece independente da internação do bebê. Aqui o psicólogo também atua no sentido de diminuir a angústia da internação prolongada da criança e os sentimentos reativos dos pais.


É comum que após a alta do bebê, os cuidados excessivos com o mesmo continuem. Eles vão desde a higiene excessiva no contato físico com a criança, até o impedimento de que outras pessoas segurem-na. Muitos pais tratam-na ainda como sendo mais frágil como ela é, colocam-na para dormir na cama do casal para verificar como passa as noites com medo de que ela passe mal, tratam-na diferente de outros filhos, entre outras atitudes que podem não ser boas para o desenvolvimento psicológico da criança. Caso o psicólogo perceba estas tendências é necessário que ele faça uma intervenção a longo prazo com os pais.


Em retornos da criança no setor de pediatria o próprio médico pode solicitar um acompanhamento da família, uma vez que é ele que vai ter um contato freqüente com a criança após sua alta hospitalar.


Este tipo de atuação psicológica no Brasil ainda é muito recente. Muitos hospitais não dispõem de psicólogos em suas equipes e não têm a prática multidisciplinar em situações deste tipo, incluindo profissionais como psicólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e outros nos pareceres e nas discussões sobre a doença ou sobre o doente. A humanização dos setores de risco em hospitais ainda é incipiente no país e exige um amadurecimento cultural para que o psicólogo garanta um espaço de atuação.


 


 


Fabiana H. Kurbhi


Psicóloga


fabianahk@yahoo.com.br


tel: 3814-9863


Fonte: Release Fabiana H.Kurbhi
30/06/2006 - 12:29
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